Um Estágio em Portugal, e no Mundo com Álvaro Siza – Ana Silva

DouroUM ESTÁGIO EM PORTUGAL, E NO MUNDO COM ÁLVARO SIZA

INTRODUÇÃO

O período de estágio é das etapas mais marcantes na vida de um arquitecto. Interfere não só na sua prestação enquanto futuro profissional, mas também no seu dia-a-dia, enquanto ser humano. Formam-se princípios.

Tudo o que decorre neste período, reflectir-se-á depois do seu termino, de forma mais, ou menos intensa. As boas experiências incentivam a prática da profissão, as más repudiam-na. Hoje a vida de um arquitecto não é fácil.

É um período em que existe total disponibilidade para aprender e por isso, talvez a capacidade de absorção seja maior. Sentimo-nos no entanto, menos confiantes, e conscientes que a probabilidade de falhar é grande.

Este período foi para mim um dos mais ricos. Considero-o por isso Um Estágio em Portugal, e no Mundo.

Contar a sua história, implica também,  expor a forma como o consegui. E porque não devemos deixar de registar, de uma ou de outra forma, os acontecimentos que consideramos importantes na nossa vida, vou novamente, aproveitar uma oportunidade.

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COMO?   

No dia 30 de Março de 2007, foi entregue a Álvaro Siza, o Prémio Secil Arquitectura 2006, pelo projecto do Complexo Desportivo Ribera Serrallo, em Cornellá de LLobregat, Barcelona. Nessa mesma edição, foi-me atribuído o Prémio Secil Universidades 2006, com o projecto de um hammam* , no Jardim de Diana, em Évora. Terminava então o Estágio Académico nos Ateliers de Santa Catarina, com as Arquitectas Rita e Catarina Almada Negreiros.

Algumas oportunidades são únicas e por isso, é necessário que não as desperdicemos. Foi este o argumento utilizado pelas irmãs, que fez com que nesse dia entregasse pessoalmente o meu portfólio ao que é, para mim, um dos melhores arquitectos do mundo – Álvaro Siza.

– Tens de organizar o teu portfólio num formato pequeno, de forma a que lhe caiba no bolso! – Dizem animadas.

Ia assim tentar a minha sorte, numa situação que me favorecia, em relação aos autores das dezenas de portfólios que diariamente chegavam ao seu escritório. Mas não estava confiante, e nem tão pouco esperava que esse contexto fosse valorizado.

Nos meses seguintes, tentei contactar Siza vezes sem conta, mas sem sucesso. Mas não podia desistir sem um Não.

Estava em Évora quando finalmente consegui. Tal como esperava, Siza não tinha analisado ainda o trabalho que lhe entregara e por isso, simulei uma viagem ao Porto, na tentativa de que, assim, me recebesse.

– No próximo fim-de-semana vou estar pelo Porto, por acaso tem uns minutinhos para me receber? Assim arrumávamos logo o assunto – Disse eu.

– Assim quem fica arrumado sou eu. Tenho o fim-de-semana já praticamente ocupado. Só se for no sábado ao meio-dia!?

Assim foi no dia 9 de Junho de 2007.

Quando cheguei, fui convidada a entrar para a sua sala de trabalho, onde decorria uma reunião com um dos seus mais antigos colaboradores. Nesse momento, senti-me deslocada.

Iniciamos uma conversa agradável e a pouco e pouco fui ficando mais tranquila. Surpreendia-me a sua calma, simplicidade e acima de tudo a sua disponibilidade.

Tinha comigo alguns projectos académicos, entre os quais o hammam, em painéis A1 enrolados, os mesmos que tinha entregue para a candidatura ao prémio. Independentemente do resultado da conversa, não pretendia cansá-lo, nem ocupar demasiado o seu tempo. Precioso!

– Muito interessante… ainda tenho uma vaga para ti, mas apenas para Outubro. – Diz Siza.

Incrédula, agradeci.

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A INTEGRAÇÃO  

Mudei-me para o Porto.

No dia 1 de Outubro – o meu primeiro dia de trabalho – enquanto caminhava para o escritório, sentia uma euforia tímida e silenciosa e continuava a achar que tudo aquilo não passava de um sonho. Senti o mesmo todos os dias durante os primeiros meses.

Cheguei.

– Bem-vinda. Diz Siza.

Fui pacientemente integrada pela Cristina, que trabalhava ali há quase vinte anos. O coordenador do projecto em que eu ia colaborar não se encontrava nesse dia.

Nessa altura trabalhavam ali cerca de trinta pessoas, num ambiente estimulante e simpático, num espaço magnífico com uma vista deslumbrante sobre o Rio Douro e a Ponte da Arrábida, notável obra de engenharia, projectada nos anos 60, pelo Engenheiro Edgar Cardoso.

Foi-me então dado a conhecer, o trabalho que me viria a ocupar durante os três anos seguintes. Integrado no conjunto de projectos a desenvolver, no âmbito da recuperação dos Parques de Vidago e Pedras Salgadas, o Vidago Palace Hotel constituía-se como o edifício mais emblemático. Foi-me incumbida a tarefa de apoiar Carlos, o coordenador do projecto, na recuperação deste Hotel e sua ampliação em dois edifícios: as Cozinhas e o Spa. A obra iniciara.

Desconhecia o conteúdo da fase de acompanhamento de obra, e mesmo assim receava não conseguir responder à altura, às tarefas que me fossem atribuídas. Tratava-se de uma obra delicada, composta por três edifícios de grandes dimensões, com programas complementares, mas funcionalmente distintos. Talvez fosse demasiado trabalho para duas pessoas, em que uma delas (eu) não iria contribuir certamente para o avanço do trabalho.

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O PROJECTO

O centenário Parque Termal de Vidago, situa-se em Vidago, em Trás-os-Montes – o “Reino Maravilhoso” de Miguel Torga. Ocupa uma vasta área de 40 hectares de paisagem, e acolhe um conjunto de edifícios de tipologias e funcionalidades diversas, que o enriquecem.

Do conjunto das intervenções em curso, destacava-se a reabilitação do Vidago Palace Hotel, com vista à sua elevação à categoria de cinco estrelas; a construção de um SPA; a recuperação do Clubhouse; da Fonte Salus e das Fontes de Vidago; e a construção de uma portaria. Existiam no entanto outros projectos, que por vários motivos, nunca chegaram a sair do papel. São eles: o Núcleo Rural – apartamentos turísticos e residência de artistas; a Academia de Golfe; o edifício da manutenção; o Espaço Serralves – espaço cultural expositivo e de criação permanente, resultante do protocolo celebrado com a Fundação de Serralves; e as Casas do Golfe – moradias turísticas.

Estes projectos estavam divididos por várias equipas. A maior parte delas era apenas constituída por duas pessoas – um coordenador e um estagiário ou outro colaborador menos experiente. Mais de 50% dos colaboradores de Siza, trabalhavam nesta altura, nos Parques de Vidago e Pedras Salgadas.

Vidago Palace Hotel é uma obra neo-romântica e é o coração do Parque de Vidago. Foi projectado pelo arquitecto Ventura Terra e a sua construção teve início em 1908. Em 1910, foi inaugurado e caracterizado à época, como um dos hotéis mais vanguardistas da Europa. A sua imagem recuperava os grandes palácios românticos. Em 1995, sofreu uma intervenção que desfavoreceu o edifício.

Neste contexto, e tendo em conta as exigências programáticas exigidas, a intervenção de Siza, consistia em refazer quase todo o interior do edifício, conferindo-lhe de novo o seu carácter, com excepção do seu núcleo central que se encontrava praticamente intacto e que, por isso, iria apenas ser alvo de obras de restauro.

Como apoio ao restaurante aqui integrado, estava também prevista a construção de um Edifício de Cozinhas agregado ao Hotel.

Para além disso, pretendia-se ainda a construção de um SPA, com ligação directa ao Hotel. A sua complexidade programática e consequentemente técnica, aliava saúde e lazer, no usufruto das águas termais.

Actualmente em funcionamento, o edifício é composto por dois pisos e contempla: dez salas de tratamentos individuais; duas salas de tratamentos para casais; duas salas de beleza; duas salas de relaxamento; duas salas de hidromassagem; uma sala de jacto de água; dois vichys; uma sauna; um banho turco; ginásio; bar interior e outro exterior; uma piscina interior; três piscinas exteriores, uma das quais aquecida; balneários; e todos os restantes espaços necessários ao bom funcionamento do edifício.

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A COLABORAÇÃO

Comecei por estudar o projecto. Apenas no dia seguinte me iam ser destinadas tarefas.

Estava pela primeira vez perante um projecto de execução daquelas dimensões. Tudo tinha regras. E por indefinição, o que não tinha, viria a ter. A execução não estava completamente fechada, pois o prazo para a sua entrega tinha sido curto.

Nos primeiros tempos elaborei várias maquetes a todas as escalas, que permitiam a Siza estudar partes do projecto.

– A seguir há-de vir qualquer coisa mais interessante. – Dizia Siza.

Mas naquele momento, o que poderia ser mais interessante que entender, “construindo” a três dimensões, os espaços constituintes do projecto?

Passei depois para a produção de desenhos de execução. Senti-me completamente perdida. Eram demasiadas camadas abaixo da de acabamento. Os remates entre elas pareciam-me caóticos, mas coerentes. Nessa altura pensei que não iria poder ajudar, por não saber o suficiente. Mas depressa concluí que o procedimento inerente à procura de soluções, face ao confronto com problemas reais, constitui um processo de aprendizagem eficaz.

– Avança com o parcial da piscina das crianças – Dizia Carlos.

Perguntei, cruzei desenhos parciais e pormenores do projecto, referências de outros, projectos de especialidades, informação técnica de materiais e mais… Cometi erros e fiz correcções, sempre amparada pela persistência de Carlos, que na altura temia, mas a quem agora tanto agradeço.

Por seu incentivo, trabalhei algumas vezes sob a coordenação directa de Siza, que antecipava todas as direcções do projecto, relativamente à forma, composição e materiais. De seguida eu estudava e desenhava. Entre desenhos e maquetes, este processo repetia-se vezes sem conta, até que Siza chegasse à solução final. Recordo que, numa dessas vezes elaborei a seu pedido, uma maquete à escala 1/2, da parte superior de um caixilho exterior de correr/fixo, de forma a facilitar a resolução dos problemas que apresentava. Tinha aí as respostas a alguns porquês. Tudo é desenhado até ao mais pequeno pormenor. As regras nascem de princípios estéticos e/ou de pressupostos inerentes à boa construção.

– Quem disse God is in the details?! – Murmura Siza tantas vezes.

Trata-se claramente de uma obsessão. E é contagiante.

A propósito, Siza escreve em 1999:

Desenho de pormenor (detalhe, do francês déteil)

Os pormenores difíceis cansam-se. Definitivamente cansam-se, enquanto tentam cansar-nos, na ânsia de escapar.

A obra surge e atira-nos à cara o rosto do cansaço. Emudecem, ou emergem gritando, desafiando a acalmia dos desejos.

Quando nos é permitido, em domingos desertos, percorremos a obra, como quem percorre o que lhe é alheio, vadio inconsciente de procura até ao encontro.

A construção é quase igual a uma ruína.

Se algo do entusiasmo inicial reaparece, então a obra torna-se ruína de um palácio.

Estudamo-la. É possível recuperar. Descobrimos tecidos sofredores, raízes do desenho degradado. Podemos isolar fragmentos, pois vamos aprendendo de que coisa são fragmento, se tudo corre menos mal.

Desenhamos. Redesenhamos. Povoamos o vazio de imagens possíveis – uma, duas, trezentas. Caem corpos de imagens virtuais.

É então que os pormenores difíceis se cansam, e um a um se entregam, deixando de ser um.

A ruína – a construção – sara.

A paz regressa à Terra, a menos que…

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A PRIMEIRA VISITA À OBRA

Chegou finalmente o dia em que ia à obra. E com Siza.

Registei esse dia como memória e apontamentos de trabalho. Transcrevo de seguida alguns excertos.

Porto, 4 de Novembro de 2007

Após um mês de trabalho intensivo, no projecto do Parque de Vidago, surgiu finalmente a oportunidade de visitar a obra. E com Siza. Hoje, foi um daqueles dias em que mais vale não falar e para não esquecer, escrever!

A reunião estava agendada para as 10 horas. A hora de avanço com que chegamos, valeu uma visita guiada ao Parque, com o qual até então, me sentia apenas familiarizada a duas dimensões. O sol radioso delineava as cumeeiras.

Uma hora depois reunimos no edifício de congressos, onde Siza já se encontrava. Enquanto esperava, esquiçava e resolvia problemas do projecto de recuperação da Casa de Chá, do Parque de Pedras Salgadas. […]

Organizou-se então o percurso de carro em torno do Palace, poupando Siza a grandes caminhadas. Independentemente disso, era normal que no final de um dia de trabalho, se acabasse por demonstrar mais resistente que todos os outros intervenientes juntos. […]

Bem disposto, de caneta ou lápis numa mão e cigarro na outra, Siza pedia desenhos específicos. Pensativo, tranquilo e simultaneamente entusiasmado, ia caminhando e ditando os princípios, que iriam originar futuras alterações e ajustes ao projecto. Eu registava e fotografava.

É necessário investigar, qual teria sido a cor original do edifício, pois pretendia mantê-la. Pensa-se que essa cor foi também utilizada numa habitação privada em Vidago, para além disso, existe ainda uma fotografia a cores de uma caçada junto ao Hotel. São no entanto, imprescindíveis as sondagens. […]

Siza deu indicações para proceder ao levantamento de alguns alçados interiores e arcos aparentes no piso inferior do Hotel, de forma a possibilitar a relocalização de paredes divisórias e vãos correspondentes. O rebaixamento dos tectos, devido à existência de condutas de ar condicionado, iria dificultar a manutenção da linguagem original das vistas interiores. […]

Prever e prevenir alterações de vãos existentes. Diagnosticar a viabilidade da reabertura de alguns vãos exteriores, que actualmente se encontram fechados. Detalhar dimensões exactas dos vãos à direita e rever abertura dos vãos à esquerda. Apontavam-se as prioridades para o dia seguinte no escritório.

A última intervenção no edifício tinha-o deturpado em certa medida. A recuperação foi feita à base de gesso cartonado. Os pavimentos apresentavam vários desníveis. E para além disso, foram valorizados alguns elementos sem qualquer valor aparente.

– A certa altura e a meio do processo chatearam-se com o arquitecto. – Alguém refere.

– Se calhar vai acontecer outra vez o mesmo – Diz Siza rindo.

Continuamos o percurso pelo interior do edifício. Sentia o peso esmagador das paredes exteriores com cerca de 17 metros de altura. A forma como estavam suportadas, causava a impressão de que uma brisa as poderia derrubar. Constatava-se o admirável estado em que o edifício se encontrava.

– Parece o Chiado há uns anos atrás – Relembra Siza.

Já no exterior e após o atravessamento de todo o piso inferior do Palace, chegamos ao SPA. Siza  aprecia  as  árvores  ali  existentes. Agrada-lhe  especialmente o pinheiro ao fundo, envolvido por uma hera. Ia integrá-lo na piscina das crianças. É necessário analisar depois em maquete esta piscina. Os remates dos muros com o terreno e respectivas inclinações. Talvez seja necessário subir a cota dos muros em pontos específicos, aquando da intercepção com o terreno.

Analisa-se a curvatura da rampa que acede à piscina exterior e a ligação ao Hotel, que em breve poderá já ser contemplada, e o vão em que é feita a transição entre edifícios que deverá ser redimensionado. O seu aumento, conforme Siza pretende, irá criar problemas estruturais na amarração da laje de cobertura adjacente. Era urgente confirmar se a implantação desta ligação coincidia com esse vão. Carlos garantia no entanto, que o lançamento da obra do SPA tinha tido como ponto de partida, o momento em que este tocava o Hotel.

Tudo funciona. Não é duro, nem rígido. […]

O muro existente de contenção de terras, implantado ao acaso é reprovado por Siza.

– O que é construído é geométrico. – Afirma. […]

Siza foi confrontado com uma dúvida referente à manutenção de dois plátanos existentes. O facto de não estarem representados no levantamento topográfico, tinha feito com que o projecto se estendesse naquele sentido. Tenciona transplantá-los.

– Se vão abaixo, no dia seguinte já está no jornal. E se calhar é o Senhor que põe no jornal. – Diz rindo para o engenheiro agro-florestal.

Estava ainda perturbado com as acusações injustas que lhe tinham sido dirigidas pela baronesa Carmen Thyssen, no âmbito do projecto do novo eixo Prado-Recoletos, em Madrid. […]

Voltamos ao Palace.

O maço de cigarros termina.

– Bem… terminou a visita à obra! – Brinca.

Alguém se desloca imediatamente ao café mais próximo, para comprar mais um.

Com a testa encostada ao vidro olha para baixo, para a entrada do Palace e continua.

– Tudo  em  saibro, tirar  o  empedrado, lajeado  nas  duas  entradas  em baixo, heras e  

camélias…

Dá-se conta, de um problema de desenho na ligação superior do edifício das cozinhas ao Hotel, em frente à Sala do Charuto. Siza considera-a A sua Sala.

– Esta vai ser a minha sala quando eu cá vier. – Diz.[…]

Deverá ser usada telha tradicional, sem patine artificial, pois pretende-se que esta possa surgir naturalmente, integrando o edifício na natureza envolvente e protegendo-o, simultaneamente.

De volta ao centro de congressos, analisa-se a documentação recolhida em alfarrabistas de Lisboa. Nos calendários das águas de Vidago e Pedras Salgadas, o Palace figura, maioritariamente das vezes como fundo. Discutem-se cores, envolventes, texturas. E Siza resume as necessidades. […]

À saída do Parque passamos pela casa pintada da cor do Palace. Era claramente da sua “família” – a mesma cor, o mesmo coroamento. Por coincidência, o seu proprietário estava por perto. Conduzia as obras em curso de recuperação. Emocionado por estar junto a Siza, explicava-lhe que a sua intenção era respeitar a traça original da casa. Siza congratulou-o. Eram duas casas geminadas. A que estava a ser recuperada mantinha aparentemente o seu estado original, a outra sofrera já alterações. A caixilharia em pvc, imitava madeira. A cor original tinha sido substituída por uma cor florescente, devido à dificuldade sentida na sua reprodução, pois era composta por um pigmento integrado na argamassa, da qual recolhemos uma amostra. Siza é convidado a entrar.

Constatei a relevância do contacto entre o arquitecto e a população, que normalmente pode testemunhar o que com o tempo se desvaneceu, e descrever pormenorizadamente a realidade do contexto em que a obra se insere, que na maior parte das vezes, é dificilmente desvendada pelo arquitecto.

Eram 16:30h quando almoçamos. Normalmente, Siza prefere não o fazer.

Durante o almoço, falava-se da série espanhola Los jinetes del alba, com algumas cenas rodadas no Palace, em 1989, com Victoria Abril no papel principal.

– Lindíssima. – Comenta Siza.

No regresso ao Porto dormiu, cantou como sempre canta quando está feliz, fumou.

Boa noite e obrigada pela aula.

6

NO FINAL, COMEÇAVA

Foram longos os meses de trabalho. Os dias alternavam-se entre os projectos de execução do SPA e da recuperação do Palace. Para mim, eram duas grandes experiências em simultâneo.

Projectado com base numa matriz nova, a construção do SPA estava, nesse sentido, mais facilitada. Já a matriz pré-existente do Hotel, implicava a adaptação de um programa com especificidades contemporâneas, elevando assim, o nível de complexidade da obra. Revelava-se um verdadeiro “trabalho de relojoaria”.

Era gratificante ver a obra crescer a cada visita. O nosso trabalho e empenho estavam em construção. Apesar de ser apenas uma estagiária, pela forma como fui acolhida por esta equipa, pude felizmente sentir, que também contribuíra para o crescimento daquela obra. Amadureci.

Senti a estranheza do que é, pela primeira vez, ver construído algo em que trabalhamos. Ansiava por vir a sentir a emoção do arquitecto, enquanto autor, ao ver a sua obra construída. Essa é a finalidade com que a projecta.

Faltava apenas um mês para terminar o estágio. A  obra não tinha ainda terminado.

Queria poder continuar. O que tinha aprendido durante aquele período era inquantificável, e sabia que se continuasse poderia aprender muito mais.

Quase a terminar o dia trabalho, dirijo-me a Siza.

– Siza, o meu estágio termina daqui um mês. Queria perguntar-lhe se posso continuar…

– Se puderes continuar, eu gostava que continuasses. – Responde tranquilamente.

Voltei a sentar-me, e continuei a trabalhar ainda mais motivada.

Actualmente, continuo a colaborar com Siza e a aprender todos os dias.

7

O DESFECHO

Apesar de, cronologicamente, este desfecho ter acontecido fora do período de estágio, não poderia deixar de o registar. Representa o fim da obra.

Infelizmente, representa também a minha primeira desilusão durante esses três anos. O final desta história é feliz, mas não tanto como o da maioria.

A obra do SPA encontrava-se já num estado avançado.

A nova estrutura interior do Hotel estava já concluída. O quarto modelo estava praticamente terminado. Iam iniciar-se os acabamentos dos restantes. As peças em pedra dos revestimentos interiores, desenhadas uma a uma, à medida dos espaços em que iam ser aplicadas, estavam numeradas e em paletes junto à entrada do Palace. O puzzle que formavam era complexo.

Siza é informado de que uma empresa de decoração de interiores, contratada pelo dono de obra, iria integrar a equipa. Ia iniciar-se um trabalho conjunto que conduziria ao termino da fase final da obra do Hotel.

Os acabamentos estavam definidos. Decorriam os trabalhos de restauro sob a coordenação do arquitecto José Aguiar – especialista no tema da cor – contratado pelo dono de obra, para executar os trabalhos “arqueológicos” inerentes à pesquisa das pinturas  originais. Trabalho que em  Pedras Salgadas, tinha  já dado os seus frutos.

O mobiliário existente e original do edifício, a recuperar e posteriormente a reintegrar, tinha já sido previamente seleccionado por Siza. Tal como o mobiliário novo, constituído por algumas das suas peças. À partida não fazia sentido a contratação desta nova equipa. No entanto, os trabalhos prosseguiram.

O ambiente que Siza tinha previsto no interior do edifício, e que a pouco e pouco ganhava dimensão, começava a ser questionado. Novas soluções surgiram por parte da equipa de decoração, cujos princípios foram aceites pelo dono de obra. Acabando assim, por conduzir os trabalhos que desfiguraram completamente todos os interiores do edifício. Esta intervenção selvagem foi seguida pela destruição do quarto modelo.

O mobiliário original desapareceu.

Siza decide assim, retirar o seu termo de responsabilidade, relativo às obras do interior do Vidago Palace Hotel e do Edifício das Cozinhas, e aceita conduzir até ao final, a obra dos seus exteriores e de todo o edifício do SPA, com a condição de que ninguém voltasse a interferir no seu trabalho.

AGRADECIMENTOS

A Siza pela amizade, pelas lições de arquitectura, pela sua arquitectura.

A todos os seus colaboradores. Especialmente, à Anabela, ao António, ao Carlos, à Cristina, ao José Luís, e à Maria João, pela sua disponibilidade e por tudo o que me têm transmitido ao longo deste tempo.

* Termo geralmente usado para referir uma tipologia arquitectónica predominante no mundo Islâmico e relativa as salas de banho públicas e privadas. O hamman tem origem na arquitectura Bizantina. Desempenha um papel fundamental na cidade Islâmica.

ANA SILVA

Ana Silva nasceu em Castelo Branco, em 1983. Em 2007, licenciou-se em Arquitectura pela Universidade de Évora. Em 2006, inicia o Estágio Académico nos Ateliers de Santa Catarina, em Lisboa, com as arquitectas Catarina e Rita Almada Negreiros. Paralelamente, colabora com o designer de moda Filipe Faísca. E com o arquitecto João Rocha, num projecto de investigação relativo à análise morfológica da Medina de Marrakech.

Em 2007, recebe o Prémio Secil Universidades 2006, com o projecto final de curso, hammam, no Jardim de Diana em Évora. No mesmo ano, inicia o Estágio de admissão à Ordem dos Arquitectos, no Atelier Álvaro Siza 2 – Arquitecto, S.A., no Porto, com o arquitecto Álvaro Siza Vieira, com quem colabora até hoje. Actualmente, aqui coordena alguns projectos, entre os quais, a obra em curso do Museu-Oficina de Artes Manuel Cargaleiro, no Seixal.

Desde o início da sua actividade profissional, tem desenvolvido em paralelo, alguns projectos pessoais e participado em alguns concursos, sendo que dos últimos resultaram, o 2º lugar no Concurso para a Requalificação dos Moinhos das Ribeiras de Alferreira e das Barrocas, no Gavião, em Portugal, e mais recentemente, o 1º lugar no Concurso Zero Net Energy Architecture (em co-autoria), com o projecto de uma residência de estudantes, no campus universitário de Merced, na Califórnia.

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A OASRS é a Delegação Sul da Ordem dos Arquitectos, a associação pública representativa dos licenciados ou detentores de diploma equivalente no domínio da arquitectura, que exerçam a profissão de arquitecto. A Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos presta serviços de apoio aos arquitectos que se situam na zona geográfica do Sul de Portugal. O site é http://www.oasrs.org/

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  1. Pingback: ¿Arquitecta en Portugal? | vega solaz

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